domingo, 18 de junho de 2017

poça passo peço



A iminência de um passo. A gota formada desce pelo ar sem mira, sem esperança alguma, sem qualquer pensamento sobre passado presente e futuro. Sem preocupar-se com o estado em que se encontra, sem ao menos ter ciência de sua pureza. Cai, repousa na face de quem o céu observa na esperança de ser refrigerado, corpo e alma. Durante uma caminhada o automatismo mantém em movimento o corpo enquanto a mente se liberta para buscar soluções, rumos, tempo. “A falta de alternativas clarifica maravilhosamente a mente.(Henry Kissinger)". Uma mente clarificada, sem as névoas do dia a dia, permite perceber a vida, o ambiente ao derredor, de uma forma diferente. Entre as formas de tocar, a mais intensa é o olhar. Suas camadas, suas cores e seus versos. Não melhor ou pior, mas diferente. Seu doce vai além da formiga que chama ao vento.

Assim o tempo se embrenha no vento e dobra sobre os poros, escorre pelo olhar, mantém-se tempo, vento. O ruminar memórias de estrangeiros, os passos de Marco Polo revelando invisíveis curvas que dobram conceitos. O segredo das pisadas não está na direção. Se te escrevo me descrevo, me embrenho e ainda respiro.

Esse laço desfeito sobre nossas cabeças que solta-nos ao ar em uma queda onde a liberdade é o tormento de distanciar-se do que se deseja. Você não compreende o que é fazer da palavra um punho fechado a esmagar o coração no peito, comprimindo suas batidas, espremendo o que corre nas veias.
...

Plenamente belo, o beija-flor perpassa os fios do vento carregando em si o pólem da esperança, o sabor do verso de amor. Antes de pousar, o beijo, o momento delicado de reverter a física a favor de um instante. Meu olhar encontrou repouso no seu voo. Os ambientes passavam e entravam dentro de mim.

Regimes democráticos e a iminência da ruptura


O retrato social revela um comportamento popular que exemplifica as interferências sociais do sistema político vigente. A sociedade leiloa seus direitos a poderes e representantes que mais empatia geram. Legislativo, executivo e judiciário estão repletos de protagonistas que defendem um projeto político que manipula a população em função das facilidades de sempre: aumento e garantia de poder aquisitivo. Uma reforma do sistema político deve partir do rompimento deste paradigma: o das facilidades e das riquezas. Quando o fazer política, uma vocação natural humana, deixar de ser um negócio, quando passar a reunir a sociedade de forma que ela possa compreender as ferramentas que possui para forjar um novo sistema que vá além dos precedentes.

Desta feita, é máster promover uma releitura de como o pensamento político e visão da sociedade percorreu a história e estruturação dos regimes que organizam e regem a sociedade além das gerações. Mas o que possibilita o pensamento de que o sistema político vigente precisa de uma ruptura e sucessão? O trânsito livre pelo mercado integrado pela acessibilidade da globalização revolucionou as concepções de liberdade e desenvolvimento, diálogos culturais, mas também acentuou as mazelas do indivíduo, expondo fragilidades.

Forjada nas frustrações sociais, a democracia foi usada como brasão de um sistema de ordem social. “A crença democrática é a crença no homem comum… é a crença na capacidade de todas as pessoas para dirigir sua própria vida”. DEWEY (1939). Concebida como o governo do povo, a democracia foi disseminada para todos como um mecanismo para todos, mas suas especificidades não eram expostas. Desde a Grécia antiga, passando por suas diversas releituras, a democracia embutia em sua operacionalização a exclusão do próprio povo, pela seleção das vozes interferentes do que vem a ser a ideologia democrática. Se conceitualmente povo representava uma sociedade de homens livres e de direitos iguais, na prática, essa concepção de povo se referia ao povo controlado, mas o povo interventor nas políticas públicas não tinha a voz de mulheres, escravos, e jovens menores de 18 anos.

Assim, podia-se dizer que o sistema político ateniense era constituído por homens livres selecionados, pois uma triagem era realizada para definir quem pertence como interventor no referido sistema. A esfera pública então, não representa o povo em sua totalidade, mas o controla sob o argumento de representar a voz popular.

A esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos. Do mesmo modo que o mundo da vida tomado globalmente, a esfera pública se reproduz através do agir comunicativo, implicando apenas o domínio de uma linguagem natural; ela está em sintonia com a compreensibilidade geral da prática comunicativa cotidiana. (HABERMAS, 2003: 92).

Assim, é possível também perceber que a opinião pública não representa a representação popular, da sociedade, mas sim a manifestação da vontade de um grupo dominante que se impõe como consenso, como opinião da massa.

"Uma das dimensões muito importantes da teatralização é a teatralização do interesse pelo interesse geral; é a teatralização da convicção do interesse pelo universal, do desinteresse do homem político – teatralização da fé no padre, da convição do homem político, de sua confiança naquilo que faz. Se a teatralização da convicção faz parte das condições tácitas do exercício da profissão de clérigo – se um professor de filosofia deve parecer acreditar na filosofia -, é porque é a homenagem fundamental do personagem oficial para com a autoridade; é aquilo que precisa conceder à autoridade para ser uma autoridade, para ser um verdadeiro personagem oficial. O desinteresse não é uma virtude secundária: é a virtude política de todos os mandatários. As escapadelas dos padres, os escândalos políticos são o colapso dessa espécie de fé política na qual todos estão de má-fé, a fé sendo uma espécie de má-fé coletiva, no sentido sartriano: um jogo no qual todos mentem a si mesmos e aos outros, sabendo que os outros também mentem a si mesmos". (Bourdieu 2012)

Durante muito tempo o modo de controle popular, de subjugar a opinião pública, pela castração do direito de participar do processo decisório. A observação quanto aos argumentos de Bobbio (2000) quanto a democracia, o controle e legitimação do controle introspectados nela evoca uma reflexão além de paradigmas. A massa tem força para intervir, mas não tem união e direcionamento. Sua voz é forte, mas seus argumentos não tem continuidade.

O poder de intervenção da massa está na sua expansão territorial, envolvimento nas diversas camadas produtivas da sociedade e pelo seu quantitativo em grupo. Se cada indivíduo estiver alinhando e com a cultura de mudança e participação política como principio introjetado em sua constituição pessoal, quando em grupo ele se comportará de maneira alinhada aos demais e assim propiciará a construção de um consenso, de uma multifacetada voz de intervenção política e social.

Bobbio em sua obra discorre sobre os aspectos que orquestraram a dissolução da sociedade orgânica em prol de ideologias individualistas de sociedade, baseadas na sobreposição de poderes e supressão de direitos. O contratualismo, e sua hipótese de estado de natureza, na qual o povo deveria aceitar soberanos naturais em acordo para reger a sociedade rumo a vida e liberdade remete às defesas de argumento de Hitler na estruturação e seu governo. Soma-se a isso a economia política e sus visão do indivíduo singular como membro ativo (economicamente) e a filosofia utilitarista considerando estados essencialmente individuais.

Neste cenário, a democracia então propiciou o surgimento do liberalismo. Se um defende a voz e participação política do povo, o outro defende as liberdades individuais, e especialmente a liberdade econômica. O Estado era visto como um personagem a parte no mercado, dessa forma nasceu uma sociedade industrial capitalista, focada na conquista de mercado para alimentar liberdades individuais e potencializar o consumo dos sujeitos como alimento para o mercado e sistema de produção.

Em uma sociedade liberal, onde as decisões por meio de práticas democráticas previam deliberação pela votação de agentes racionais. A valorização do coletivo era modulada pela aceitação do poder decisório da maioria sobre a minoria. Então, a soberania popular foi compreendida como verdade com a instituição do sufrágio universal a partir do século XIX. No entanto, a liberdade do voto era cerceada pelos interesses políticos e econômicos do grupo dominante do sistema vigente. A democracia como o consenso a partir de tradições e nacionalismo, o liberalismo como a constante quebra de paradigmas em prol das liberdades individuais, mesmo que isso represente suprimir os direitos de um grupo menor.


... o que distingue um sistema democrático dos sistemas não-democráticos é um conjunto de regras do jogo. Mais precisamente, o que distingue um sistema democrático não é apenas o fato de possuir as suas regras do jogo (todo sistema as tem, mais ou menos claras, mais ou menos complexas), mas sobretudo o fato de que estas regras, amadurecidas ao longo de séculos de provas e contraprovas, são muito mais elaboradas do que as regras de outros sistemas e encontram-se hoje, quase por toda parte (BOBBIO, 2000, p. 77-78).

As democracias modernas então, para subsistir, dependem da limitação da maioria; procedimentos eleitorais com fluxos definidos; transmissão do poder dos representantes em um processo complexo e fechado. O desafio da operacionalização de um sistema democrático não está apenas na definição e garantia dos fluxos, mas sobretudo, na conquista da credibilidade e confiança junto à sociedade. A população deve estar convencida de que o processo vigente é o mais eficiente e confiável possível para definição do poder representativo e constituição de políticas públicas.

Sabemos por experiência própria que no momento mesmo em que a democracia se expande ela corre o risco de se corromper, já que se encontra continuamente diante de obstáculos não previstos que precisam ser superados sem que se altere a sua própria natureza, e está obrigada a se adaptar continuamente à invenção de novos meios de comunicação e de formação da opinião pública, que podem ser usados tanto para infundir-lhe nova vida quanto para entorpecê-la (BOBBIO, 2000, p. 17).

Na constituição de um regime democrático, a oposição precisa não ser morna, mas oscilar entre o ser “fria” e ser “quente” para assim justificar as transições e até mesmo reforçar regimes. Neste mesmo cenário, a miséria e a apatia da sociedade devem ser controladas para garantir que o regime político flua sem grandes obstáculos e ruína. Percebe-se então que a desigualdade deve sempre existir, mas nunca em demasia ou escassez, tendo um pluralismo subcultural baixo como mecanismo de participação política. As nações em que o método democrático supracitado mais ocorrem são as grandes nações industriais. Neste sentido, para favorecer esta estrutura precis de alguns aspectos tais como: Grupo dominante (material humano da política de alta qualidade); limitar o centro de decisões; formalizar os fluxos em uma burocracia tradicional, bem treinada; Controle e aceitação dos limites democráticos. Ou seja, o controle da participação e da aceitação é primordial para a perenidade do sistema.

Acredito, e já o disse muitas vezes, que não deve o sapateiro ir além do sapato. Não creio em versatilidade. Recorro ao sapateiro quando quero sapatos e não ideias. Creio que o governo deve caber àqueles que sabem, e os outros devem, para seu próprio bem, seguir suas recomendações, tal como seguem as do médico (STONE: 1998)

Schumpeter apresenta uma perspectiva que corrobora com o pensamento de que no socialismo a produção e distribuição de bens e serviços atenderia as necessidades autênticas da população. Sem considerar as nuances do capitalismo que renovariam o mercado e o potencial de cada indivíduo em empreender e rever as relações de trabalho e produção (ex: tecnologias e livre mercado), Schumpeter via uma transição do capitalismo para o socialismo como algo necessário para sanar as mazelas sociais. Contudo, a burguesia sempre temeu a ascensão dos pobres e por isso sempre teve nas restrições do sufrágio um mecanismo de defesa.

No terceiro milênio, a esquerda entrou em colapso ao não conseguir se estruturar de forma a coexistir com o capitalismo, uma vez que as interferências e interdependências financeiras e das relações comerciais conflitam o pensamento de esquerda no que concerne a democracia e desenvolvimento.

O capitalismo de forma natural suprimiu a democracia liberal, que defendia a liberdade do indivíduo e sua interação e voz enquanto povo. Entretanto, o pleito pela igualdade no acesso a recursos (bens e serviços) cada vez mais crescente não tem ganhado espaço no centro decisório, uma vez que a opinião pública castrada não consegue se estabelecer coo interlocutor de um contexto social pujante, na iminência de mudança, em face de ruptura com o sistema vigente. Assim as manifestações sociais ganham mais força e recorrência, pois se instalam no contexto social como uma terceira vertente entre a narrativa do poder e a narrativa da suposta opinião pública.

A democracia é o poder do contra. É o fluxo alternado das decisões padronizadas pelo grupo dominante. O voto censitário, o sufrágio universal; tentativas de encontrar um modo de viabilizar a materialização de conceitos e práticas de uma política que viabilize a sociedade de forma organizada e aprazível para todos. O Estado alternou suas formatações de patrimonial, absolutista, e de direito ao longo das gerações, adequando-se à nova dinâmica de uso e ocupação territorial, com os movimentos populares sendo imponderados. Os Estados atuais intercalam entre democracia clássica, democracia progressista ou socialista e autoritário. Enquanto os democráticos possuem sistemas parlamentarista, presidencialista e de assembleia, os autoritários se baseiam em cesarismo, ditadura e o poder individualizado.

Os autoritários defendem a ideologia de um grupo dominante, representada pelas vontades de uma liderança, enquanto os regimes democráticos deverias estar focados na realização da pessoa humana, na satisfação do indivíduo visto como comum (destituído de poderes interventores no grupo dominante da sociedade).

Todavia, é relevante para a compreensão da coexistência dos diversos sistemas políticos e regimes a licença social. A aceitação da massa quanto ao que lhe é imposto. Aceitam o sistema, mas não necessariamente as ideias isoladas e demais deliberações. A alienação controlada nos sistemas autoritários faz com que o indivíduo tenha a limitada sensação de liberdade em busca da satisfação pessoal (para atingir seus fins da maneira que desejarem sem que esses fins interfiram na dimensão política) e se sinta um cidadão capaz de contribuir na organização e desenvolvimento da sociedade.

Stork e Echevarría tratam da liberdade social como algo "em que os ideais possam ser vividos, e que toda pessoa tenha em suas mãos, a possibilidade de realizar suas metas". Nesta linha, Kant aborda a liberdade como o direito do indivíduo de dar próprias regras e moral à vida, e não apenas exercer vontades. Trata-se de algo construído, o livre arbítrio. Sartre a vê como condição natural do ser humano, manifestado pela vontade. Marx a vê como atributo dos indivíduos em relação aos bens materiais e serviços. Tantas outras são as leituras do que vem a ser liberdade e qual a liberdade ideal e qual a almejada pela sociedade.

A liberdade como premissa de ser “mestre de si mesmo” não pode existir com os padrões de organização social contemporâneos. Uma estrutura de vanguarda seria necessária, pois ao observarmos o Estado Liberal de Direito, com a democracia clássica (estruturada no sufrágio universal / equilíbrio de poder / pluralismo partidário / autogoverno locais / supremacia da lei) e a atual configuração de conflitos sociais, percebe-se seu colapso.

A estabilidade social não está ligada à estabilidade política, uma vez que percebemos que a configuração social segmentou suas expectativas e confiança do sistema político. Desta forma, um processo de entropia está instalado na sociedade, de forma que os conceitos como democracia e liberdade perderam sua força social e tornaram-se bandeira de movimentos e manifestações.

A trajetória de tentativas e erros da comunidade primitiva, escravidão, feudalismo, capitalismo, socialismo mostra uma busca do ser humano por harmonia, paz, perenidade, personalidade, conforto, subsistência, igualdade e liberdade. Não há mais espaço para sistemas amparados em violência e força como imposição social e argumentação política (Facismo). A pseudodemocracia garantiu ascensão política de ideologias e indivíduos que afetaram a psique social de forma fazer emergir guerras como instrumentos de harmonização da comunidade local, nacional e mundial.

Os conflitos passaram a ser concebidos como instrumento de resolução de controvérsias sociais e interesses divergentes. Seja na escala local, com manifestações de classes, ao invés do diálogo instituído, seja pelas guerras civis, crimes organizados, guerras entre nações.

O retrato social reforça o quanto estão obsoletos os sistemas percorridos, e evoca uma mudança, sem receitas, sem caminhos, apenas rumos. As decisões políticas e ideologias não podem mais serem tratadas com ortodoxia, como dogmas da organização social.

REFERÊNCIAS

BOBBIO, Norberto. (2000). O futuro da democracia. Trad. Marco Aurélio Nogueira. 9ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. BOURDIEU, Pierre. Fonte: Le Monde Diplomatique – Il manifesto, via micromega Janeiro de 2012 / Tradução: Mario S. Mieli Cf. Stone, I, F. (1988). O julgamento de Sócrates. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. Cf. Dewey, John (1939). “Creative Democracy: the task before us” in The Essential Dewey: Vol. 1 – Pragmatism, Education, Democracy. Indianapolis: Indiana University Press, 1998. HABERMAS, J. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,1984.

SCHUMPETER, J. Capitalismo, socialismo, democracia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961. pp. 305-366.


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domingo, 4 de junho de 2017

Tensão Superficial


A Política Externa e suas interfaces

A partir da leitura da realizada pela abordagem de Zygmunt Bauman, onde a modernidade revela uma sociedade líquida, podemos expandir o olhar e refletir acerca da percepção dos movimentos da organização social. A liquidez da sociedade, seus conceitos e suas relações, atribuem ao indivíduo uma nova vertente de comportamento e de busca para alcançar um estado de harmonia. A perenidade já não é mais um estado viável, pois segundo Bauman, "Nada foi feito para durar", tudo então é transição. A referida transição, segundo a liquidez de Bauman se ampara no desejo individual extrapolado para o coletivo. Um bom vinho e as armas adequadas para degustar a líquida sociedade.

Diante de um mundo líquido, onde cada um é potencial produtor e reverberador de conteúdo, é preciso ter muita maturidade ao se falar de política e não apenas ter o vigor da paixão. O ser humano, animal político e social, não pode confundir esta vocação de sociabilização (por meio da política) com paixão, desejo íntimo de saciar-se. As intermitências da ética materializam os lapsos humanos em defender os interesses íntimos travestidos de bem comum e bem-estar social. A história das nações e seus ciclos de poder revelam como cada vez mais a sociedade sofre com os abalos da moral humana.

O “derretimento dos sólidos”, traço permanente da modernidade, adquiriu, portanto, um novo sentido, e, mais que tudo, foi redirecionado a um novo alvo, e um dos principais efeitos desse redirecionamento foi a dissolução das forças que poderiam ter mantido a questão da ordem e do sistema na agenda política. Os sólidos que estão para ser lançados no cadinho e os que estão derretendo neste momento, o momento da modernidade fluida, são os elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas – os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de vida conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas de coletividades humanas, de outro (BAUMAN, 2001, p. 12).

Na leitura da sociedade líquida, percebe-se um ponto de tensão determinante para a organização social. As relações Internacionais e devidos desdobramentos. A política externa transita pela tensão superficial da sociedade.

A Tensão Superficial é o fenômeno físico pelo qual passa todos os líquidos. Este fenômeno consiste na formação de uma espécie de membrana elástica em suas extremidades. Trata-se da tendência de todas as moléculas do líquido a se compactarem em direção ao centro de massa, pois existe sempre uma resultante em todas as moléculas que aponta para o centro, de forma que criem a superfície externa de menor área possível, uma vez que todo sistema mecânico tende a adotar o estado de menor energia potencial.

"A tensão superficial da água é resultado das ligações de hidrogênio, que são forças intermoleculares causadas pela atração dos hidrogênios de determinadas moléculas de água (que são os polos positivos (H+)) com os oxigênios das moléculas vizinhas (que são os polos negativos (O-)). No entanto, a força de atração das moléculas na superfície da água é diferente da força que ocorre entre as moléculas abaixo da superfície. Isso ocorre porque essas últimas apresentam atração por outras moléculas de água em todas as direções: para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita, para a frente e para trás. Isso significa que elas se atraem mutuamente com a mesma força." (FOGAÇA).

A política externa dinamizou-se para além das negociações de fronteiras e gestão de recursos naturais (fontes de energia e alimentação) para um jogo politizado, com viés de relacionamento democrático e igualitário, tendo midiatizada a política externa. Trata-se de uma caminhada sutil pela tensão superficial da realidade e fundamentos da sociedade. Desta feita, faz-se primordial refletir sobre o Estado e sua filosofia de relacionamento internacional.

A ordem mundial e a famigerada disputa de ideologia de Estados dominantes. As relações internacionais, para a constituição e manutenção de uma ordem mundial passam pelo diálogo e debate de anseios e posições de cada Estado dominante. Considerando aqui Estado Dominante, a nação detentora de poder de interferência no mercado mundial seja por controle de recursos naturais, materiais, bélicos ou humanos. Os exemplos perpassam as cadeiras da Organização das Nações Unidas (ONU) e hasteiam bandeiras pelo globo.

Importante considerar então, o modo como os sistemas alternam entre o idealismo, estabilidade hegemônica e o realismo. Sob o viés da teoria da estabilidade hegemônica, a estabilidade buscada em escala global está atrelada mediante os regimes e decisões arbitrárias. Uma potência ou Estado dominante assume uma posição de liderança mundial e determina as práticas e diretrizes aceitáveis para o relacionamento internacional. Entretanto, quanto maior o regime hegemônico, mais complexo os mecanismos de controle e garantia de cumprimento dos interesses soberanos. Desta feita, a potência, para obter estabilidade social, deve estar sempre no poder global, sendo reconhecida, por consenso (O consenso vem da divergência e processo de diálogo.) ou submissão, como regente da organização mundial, determinando limites e liberdades. O Estado então é concebido a partir do respectivo potencial de monopolizar a nação e o mercado de forma coercitiva. Para se manter, o Estado deve entender e formar blocos de aliança onde o poder é controlado, para assim não ser destituído por outro Estado dominante.

Evoluindo neste cenário, a teoria realista coloca o Estado como o epicentro das decisões. Neste contexto, partindo da concepção de que as relações internacionais são, por natureza, conflituosas, o Estado cerceia o conceito e prática de democracia no ambiente interno das respectivas nações, bem como o deturpa no cenário mundial. Instaura-se assim, a guerra como instrumento de se estabelecer a paz. Trata-se de uma medida dos Estados para maxização de poder e soberania ideológica. Assim, o processo conflituoso de sobreposição de poderes propicia o caos social. Princípios éticos no pensamento realista perdem espaço para a instintiva busca por sobrevivência (seja física ou ideológica), logo, conflitos são estabelecidos e atrocidades tidas como processo necessário. Trata-se de viver o mundo que se encontra e não o que se deseja.

Contudo, o idealismo propõe uma sociedade igualitária em poder de voz, onde a estabilidade seria construída pelo diálogo e não pelo confronto e agressões. O bem coletivo é o norte das decisões de forma a construir a ideia de uma moralidade internacional de cooperação. Nesse sentido, são defendidas as liberdades individuais e o Estado não tem poder arbitrário para agredir valores sociais e cometer abusos de poder. Os conceitos e relações sólidas de uma sociedade padronizada sofreram as interferências dos novos tempos, e sua operacionalização sucumbiu a uma perspectiva alternativa.

O “derretimento dos sólidos”, traço permanente da modernidade, adquiriu, portanto, um novo sentido, e, mais que tudo, foi redirecionado a um novo alvo, e um dos principais efeitos desse redirecionamento foi a dissolução das forças que poderiam ter mantido a questão da ordem e do sistema na agenda política. Os sólidos que estão para ser lançados no cadinho e os que estão derretendo neste momento, o momento da modernidade fluida, são os elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas – os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de vida conduzidas individualmente, de um lado, e as ações políticas de coletividades humanas, de outro (BAUMAN, 2001, p. 12).

A descentralização dos polos com o fim da Guerra Fria instituiu no cenário mundial uma horda de nações emergentes e mercados instáveis em termos de produção, consumo e sustentabilidade.  A gestão de território tornou-se ainda mais complexa sem as bandeiras ideológicas regendo as relações internacionais. As grandes promessas econômicas (países emergentes) configuraram uma alternativa ao mundo organizado segundo os padrões do Estado Dominante Americano (EUA). Destaque especial para a China, que se tornou o principal parceiro comercial bilateral (maior importador desde 2009), como afirmou Jim O’Neill (Chefe de gerência acionária do grupo financeiro Goldman Sachs – que cunhou o termo BRICS - acrônimo referente Brasil, Rússia, Índia e China). Os BRICS detêm mais de 21% do PIB mundial, formando o grupo de países que mais crescem no planeta.

Durante os últimos vinte anos, a política externa virou um dos principais campos de batalha entre PT e PSDB, os dois polos que se elegeram pelo voto popular para a presidência da República. Poucas políticas públicas foram tão polarizadas e controversas. De um lado, os petistas enxergaram no governo Lula a diplomacia mais arrojada. Com sua política externa ativista, Lula teria elevado a posição do Brasil à de grande potência emergente. Segundo essa visão, FHC representaria o exato oposto: a capitulação de uma elite entreguista à hegemonia dos Estados Unidos. A cena que esse grupo gosta de reprisar é a do último chanceler tucano, Celso Lafer, tirando os sapatos para uma revista de segurança em aeroportos norte-americanos. Do outro lado do ringue, encontram-se os tucanos, para os quais o presidente-sociólogo teria normalizado as relações com o mundo, tirando o Brasil do isolamento acumulado nos anos de ditadura militar e de atraso econômico. Para eles, a diplomacia petista seria uma função da vaidade prepotente de Lula e sua equipe. Em ninho tucano, a cena em reprise é a de Lula em Teerã, punho no ar, desafiando as grandes potências num abraço com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. (FELLOW e SPEKTOR. 2016 P.18)

Neste novo cenário, nações formam missões (de iniciativa privada e poder público) para defender interesses de setores e vetores de desenvolvimento na busca por mercado e integração. As recorrentes missões do Governo Brasileiro em visita a países Asiáticos (Ex: Japão) reforçam esta observação.  Acordos de Cooperação e Protocolo de Intenções tornaram-se corriqueiro instrumento de formalização da política externa. No Brasil, assim se busca investimento estrangeiros e apoio político e tático nas relações comerciais (na medida em que decisão da AGU em 2010 sobre a LEI No 5.709, DE 7 DE OUTUBRO DE 1971, restringe a ocupação do capital estrangeiro no território tupiniquim na intenção de resguardar a soberania nacional; cerceando assim o investimento do capital estrangeiro).
O sistema político mundial está sofrendo os efeitos da perda de credibilidade e confiabilidade da opinião pública referente aos políticos. Assim, percebe-se uma horda de personagens da iniciativa privada, que até então atuavam no meio político como articuladores e financiadores, assumindo papéis políticos, para realizar gestão pública. Cidades, Estados e Países (EUA), elegem e creditam mudança a ícones da inciativa privada. Dentre os vários riscos envolvidos, está o de gerar conflitos de grandes proporções, em função de um choque de linguagens. Se a iniciativa privada, que conduz seu plano de negócios com base em decisões, estratégias e práticas Técnicas, tentar conduzir assuntos de natureza Política de forma técnica, irá potencializar tensões, não compreender as nuances da gestão política do território, e atrofiar relações necessárias para a manutenção da sociedade.

A Era Trump instaura no mundo, um cenário de instabilidade das projeções políticas e da democracia, amplificando riscos de conflitos internacionais e vulnerabilidade dos diversos mercados. Suas estratégias para alavancar a economia daquele país, com geração de emprego e fortalecimento econômico são controversas. Todavia, levantamentos da Economist Intelligence Unit - EIU sugere que na América Latina o Brasil será um dos menos afetados e corre menos riscos com as medidas norte-americanas de política internacional nesta nova era, fundamentada em um protecionismo de interferência no comércio internacional.

A política externa brasileira tem evoluído no sentido de flexibilizar parcerias de modo a potencializar setores econômicos nacionais no mercado mundial. O País buscou além de acordos de livre comércio, recuperar voz efetiva nas discussões globais sobre o clima, sobre os direitos humanos, liderança regional e a democracia. Todavia, as articulações fora do cenário econômico pouco avançam. Não há no país, resultados de uma integração internacional em respectivas políticas públicas no que concerne a melhoria de qualidade de vida da população, modelo de gestão política e organização social.

O Brasil vive um momento de emergência nacional. Em três anos, acumularam-se a crise política inaugurada com os protestos populares (2013), o início de uma longa recessão econômica (2014), a expansão da operação Lava Jato (2015), a queda de Dilma Rousseff e a implosão eleitoral do PT (2016). Depois do ciclo virtuoso de mais de uma década, a trajetória do Brasil é negativa. O pano de fundo dessa transformação para pior foi uma economia global de baixo crescimento, o aumento de nossa dependência econômica em relação à China e a onda global de neopopulismo, que venceu o voto pela saída da União Europeia no Reino Unido e levou Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Esse é o contexto no qual se impõe a necessidade de modernizar a doutrina brasileira de política externa. (FELLOW e SPEKTOR. 2016 P.18)

O Nacionalismo econômico defendido tanto no Brasil, quanto no modelo defendido por Trump desconsidera nuances de uma estabilidade social e democrática. Neste sentido é fundamental reestruturar as leituras e objetivos do cenário interno para melhor definir as diretrizes de relações internacionais. A inserção do país em discussões, com poder de interferência, em questões globais, passa por um fortalecimento dos objetivos que a nação tem além-fronteiras.

A construção de uma nova doutrina de política externa demandará algum tipo de consenso suprapartidário. Não é uma tarefa que possa ser descolada do processo político interno, nem uma empreitada viável no curto prazo. Ao contrário, trata-se de um esforço que demandará alguns anos de maturação, com ideias e conceitos que, um dia, possam compor um arcabouço doutrinário mais ou menos coerente. A ideia de uma doutrina de política externa é recorrente na história brasileira.  (FELLOW e SPEKTOR. 2016 P.22)

A política internacional de forma integrada prevê a valorização das nações emergentes, encerrando a velha dicotomia de mercado, sem isolar e criminalizar os Estados Dominantes tradicionais. É importante que as nações possam ser distinguidas individualmente e também em grupo. Não como um instrumento de manobra política em prol dos interesses de um eixo, mas como um player relevante, que transita com habilidade entre as especificidades da nação em si, e em grupo. Padrões de crescimento bem-sucedidos devem ser adotados e estimulados. O amadurecimento necessário para se posicionar no novo modo de fazer política que o caos presente evoca, apenas será alcançado se as legendas e fronteiras forem extrapoladas e expandidas. As nações, em espacial o Brasil, precisa conhecer e equilibrar seus potenciais internos e externos para ocupar um lugar de relevância na transição do uni para o multipolarismo das relações internacionais.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bauman, Zygmunt. Modernidade Líquida. Ed. Zahar, 2001

Bauman, Zygmunt. Arte da vida. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

FELLOW, Senior. SPEKTOR, Matias. Coordenação: 10 Desafios da Política Externa Brasileira. 2016. CEBRI. Fundação Konrad Adenauer

FOGAÇA, Jennifer Rocha Vargas. "Tensão Superficial da Água"; Brasil Escola. Disponível em . Acesso em 18 de maio de 2017.